A motivação

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A ciência da motivação

Gosto de assuntos deste género porque nos deparamos muito com isto no contexto do CrossFit, antes modalidade de procura da saúde, hoje muito percebido como desporto de competição. Gosto de tentar compreender a motivação dos atletas que entram nas boxes de CrossFit pelo mundo e ganhar alguma perspectiva sobre aquilo que pretendem e aquilo que realmente podem tirar de lá. Pensemos agora nos efeitos de uma procura pelo resultado enquanto objetivo primordial de quem treina qualquer desporto, não só o CrossFit.

Os cientistas começam a questionar-se se o foco exagerado nos resultados não atrapalham a performance à longo prazo e bem estar dos indivíduos. Cientistas da Harvard Business School escreveram num documento de nome “Goals Gone Wild: The Systematic Side Effects of Over-Prescribing Goal Setting,” que o foco exagerado nos resultados, principalmente naqueles que podem ser medidos em números, levam a redução da motivação intrínseca, tomada de riscos sem ponderação das consequências e comportamento sem ética. E isto é ciência, não é opinião. Podemos questionar se o cientificismo leva à uma espécie de verdade absoluta, o que não será discussão para agora. Para bem do que apresentamos hoje, sejamos pragmáticos e não abordemos o assunto de maneira subjetiva. Análise de dados reais, é do que se trata.

Vemos isso constantemente. O atleta fica focado em atingir o primeiro lugar, só a vitória interessa, procurando o resultado acima de tudo. E isso leva à muitas coisas como o uso de anabolizantes (vimos o caso da comitiva russa nos jogos olímpicos e tenho a certeza que não são os únicos), trapaças, fugas às regras… Mais do que isso, os adeptos também ganham uma obsessão pela vitória fazendo comemorações pela vitória e “esperinhas” pelas derrotas. Nos jogos olímpicos de 2016 tivemos vaias para alguns atletas, só porque não eram os mais queridos do público. Sem falar em comentários na internet sobre a prestação de competidores que não venceram.
Além disso objetivos demasiado grandes podem ser exagerados para nós, causando uma obsessão, que deixa um vazio na vida e leva-nos à depressão. Por vezes sentimos aquilo que os maratonistas chamam de “marathon blues”, por vezes conseguimos o objetivo e largamos os hábitos que nos fizeram alcançá-los (temos o exemplo do efeito yo-yo em dietas).
Concentrarmo-nos nos resultados deixam-nos obcecados com coisas que não podemos controlar. Por exemplo, treinamos muito para terminar uma maratona e no dia da prova uma tempestade nos impede de terminar a prova. Ou sentimo-nos mal à meio e somos obrigados à desistir. Ou o árbitro marcou um penálti contra a nossa equipa quando sabemos que não foi falta nenhuma, que a bola bateu no peito e não na mão.

Concentrem-se no processo

Isto significa partir o objetivo em pequenos objetivos alcançáveis. Ao invés de pensar em chegar aos CrossFit Games, pensa primeiro em ter uma boa nutrição, em trabalhar com cabeça obedecendo as regras de descanso, volume de treino e mantendo o treino motivante e não uma obrigação. Se a tua concentração for nesses pequenos passos e não nos Games, terás um caminho muito mais tranquilo até chegares à competição. Antes de tudo, ama o processo, não o resultado. E se não for para competir, fá-lo por que te faz bem.
Alguns atletas conseguem retirar o prazer do desporto transformando-o numa prisão. Normalmente são esses que ficam estagnados e não sabem como evoluir porque não sabem dar passos atrás. Dias de descanso não existem porque “é preciso treinar mais”. Quando não alcançam o resultado que queriam , caem em desilusão, questionando se fizeram a opção certa, se não deveriam abandonar o desporto. E por vezes o fazem.
Atletas que gostam do processo vão treinar pensando no treino do dia, têm noção se o corpo está descansado, preocupam-se com mobilidade e não pensam em pôr os colegas para baixo mas sim em crescer eles próprios com a ajuda dos amigos. A vida é muito mais do que um WOD.

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