O quadro e os resultados apontados

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Li um artigo no crossfit journal que me lembrou que nunca tratei de dar alguma atenção a esta questão que é , de facto, uma das questões mais evidentes no dia a dia das boxes. A contagem das reps e o facto de escrever o resultado no quadro.

Sobre isso, posso desenvolver 2 pontos que me parecem importantes:

1.É importante que todos escrevam o seu resultado.

Iniciantes na modalidade são relutantes em escrever o resultado no quadro. Ou porque têm vergonha do resultado ter sido baixo frente aos prozões (palavra que usam frequentemente) ou porque não contaram as reps. Reconheço que contar as reps é uma habilidade que se vai adquirindo e por vezes nós nos perdemos na contagem enquanto estamos preocupados em sobreviver ao treino. Mas fazer sem contar as reps ou olhar para o tempo é descurar a alta intensidade que nós procuramos e amamos tanto. Ao fim de um treino em que demorei 2 minutos uma vez e 3 minutos na outra, muitas vezes o cansaço parece o mesmo. Mas só com o cronómetro é que sei que dei mais, que melhorei e que fui capaz de aguentar mais uma rep. Quantas vezes não repeti a Fran para conseguir ganhar 2 segundos. Pior: repeti o 16.1 (para mim foi dos piores treinos que já fiz) para no final ficar uma rep ABAIXO. Custa, mas foi a forma de trabalhar que escolhemos, é assim o CrossFit e é por isso que o amamos. E isto é uma especificidade da modalidade. Há outras modalidades em que você pode fazer as reps com o descanso que quiser, acabar o treino sem saber quantos agachamentos fez ou ficar duas horas num treino com intensidade baixa. E ninguém te vai julgar por isso. Mas não no CrossFit. Não te pedimos para te matares, apenas para dar o teu melhor e para isso, há que respeitar a cultura criada. E escrever o resultado no quadro é parte dessa cultura. Ficam a conhecer o teu nome, o que é importante, combatendo a impessoalidade de outras modalidades. Ficas a conhecer o nome das pessoas ao teu lado. Consegues ver a humildade de quem pôs um resultado abaixo do teu no quadro. Tu não o julgarias, por quê alguém haveria de o fazer. Não, não: ninguém te julgará pelo teu resultado, ou pelo menos, não deveriam. E se o fazem, com frases do género “com esse cabedal devias fazer pelo menos 4 rounds” é porque desconhecem que deste o teu melhor ou porque eles mesmo contaram mal as próprias reps ou roubaram deliberadamente. O que me leva ao ponto 2.

2. Como lidar com “trapaceiros”

Esta é uma questão sensível. Enquanto treinadores, nós sabemos quando algo está errado. Nós conhecemos os nossos atletas. Quando alguém acaba o Murph com colete no tempo dos atletas dos CrossFit Games, desconfiamos um pouquinho. Acompanhamos várias aulas por dia e vemos um atleta na aula da noite a parar para beber água, pôr magnésio nas mãos e mesmo assim acabar um minuto mais cedo do que outro que fez tudo unbroken de manhã. E desconfiamos, é claro. Ou contaram uma Karen de 120 wallballs ou pularam um round completo da Helen. O que importa reter aqui é o seguinte: ao fazer isso (deliberadamente, quero eu dizer), o atleta só cria mal estar. Para o treinador, porque se ele o confrontar com essas no reps e resultados duvidosos vai parecer que não acredita que está bem fisicamente e que está a aldrabar. O treinador pode ignorar e cria mal estar no grupo que se sente injustiçado por ver que ele tem um resultado irreal e que o treinador não disse nada para repreendê-lo. Cria mal estar no grupo que fala dele como aquele que tem sempre melhor resultado que os outros, mas só porque é mal em matemática. E no fim, o único que está a tentar enganar é a ele próprio. Cada treinador vai lidar com esta situação de uma forma diferente. Mas no fundo, não deveria ter de o fazer.
A mim não me interessa que tu faças melhor resultado que os restantes na box. Interessa que melhores, que faças um melhor resultado do que tu mesmo farias há um ano atrás. Que te sintas bem contigo próprio. E atenção! Também não estou a dizer para filmares os teus treinos ou para ter sempre alguém contando as tuas reps. Se o teu agachamento não quebrou a paralela em todas as reps do treino, não tens como saber porque não tens olhos ali do lado. Importa que sejas honesto contigo próprio e saibas que tentaste fazer todas as pull ups com o queixo acima da barra, mesmo que uma delas tenha ficado um bocado abaixo.
Para terminar, algo que vejo como o principal elemento do CrossFit, que é a capacidade de unir pessoas a volta de uma modalidade que visa a saúde, a chamada comunidade, deve ser cultivada e preservada a qualquer preço. Questões como essa causam distúrbios no seio da comunidade e são escusadas. E bons atletas já caíram nessa armadilha (alguns vídeos do open de 2016 deixaram me boquiaberto e uma Fran supersónica da Camille postado pela própria CrossFit), importando-se mais em ter um resultado maravilha do que outra coisa. A meu ver, quando são atletas que simbolizam a modalidade, fica mal e passa uma má ideia do nosso fairplay. São opções: quem quer ter resultado a qualquer preço engana quem quer ser enganado e a cultura de campeões leva a procura de super homens. Mas UMA COMUNIDADE FORTE NÃO TEM PREÇO e é a base de qualquer box de CrossFit. Não os Fronings e Dottirs da box.

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