A nossa atitude perante a obesidade

Por que as pessoas engordam? Por que é que começam a acumular gordura no corpo? Se é só questão de comer muito e fazer pouco exercício, por que é que não existe um macaco obeso, uma girafa obesa ou outro animal obeso, a não ser aqueles que são alimentados pelo homem com o intuito claro de os tornar obesos, como as vacas, por exemplo? Todos os animais selvagens mantêm o seu peso “normal” a não ser aqueles que hibernam e esse processo é bastante específico (também está relacionado com o que falo aqui, mas já seria informação demais, fica para um próximo artigo).
Nunca me pareceu fazer sentido que as pessoas ficassem gordas porque comiam demais e eram preguiçosas. Não consigo aceitar que seja só uma questão de apontar o dedo e dizer: a culpa é tua! Eu conheci várias pessoas que fizeram dieta, que comiam pouco, que sofriam com desejos de comer e mesmo assim não perdiam peso. E mais: até ganhavam peso. Sei que não sou o único a conhecê-las.
Meu argumento aqui começa da seguinte maneira. Existe uma “epidemia” de recém nascidos obesos (agora usam epidemia para tudo), principalmente nos Estados Unidos, mas não só. Será que eles deveriam comer menos e exercitar mais? Não me parece. Qual é o problema, então?
O Dr. Robert Lustig (há vídeos fenomenais dele na internet, para os mais interessados) trabalhou com alguns pacientes com tumores no cérebro que causam obesidade. Num dos casos, a paciente que tinha um tumor no cérebro ganhou 70 Kg.

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A sua equipa administrou um medicamento experimental na paciente, medicamento esse que baixaria o seu nível de insulina. Uma semana depois, o comportamento da paciente era diferente: ela comia menos e exercitava mais, tinha mais energia. Um ano depois, ela já tinha perdido 22 Kg.
O que importa reter aqui é que ela não ficou obesa por ser preguiçosa, por exercitar pouco e comer muito. Neste caso específico, isso foi causado por um tumor. A obesidade foi um sintoma de um problema, não a causa.
Utilizo aqui um exemplo dado por Peter Attia (vídeo muito bom sobre obesidade e diabetes no TED talks que incluo em anexo). Imaginem que você se levanta à noite e no escuro bate com o joelho numa mesa de centro que tem na sala. E ao invés de tratar do problema (tirar a mesa do caminho, acender a luz antes de entrar na sala), você vai desenvolver técnicas para mascarar e disfarçar a marca na perna, com maquilhagem, meias altas e outras coisas. Você está tratando o sintoma, não o problema. O mesmo se passa com a obesidade que não é causa, mas sintoma de um outro problema enorme que não é falado e que tem proporções gigantescas hoje em dia: a síndrome metabólica.
Para perceber será preciso fazer uma breve introdução à insulina que só é citada para se dizer que os diabéticos precisam injetar essa hormona para sobreviver. A insulina é isso e muito, muito mais.
Essa hormona é necessária para a vida. Ela faz com que as células possam se alimentar, buscar energia. A glicose e outras substâncias entram nas células por causa da insulina. Imaginemos que a insulina é aquele amigo que tem bons contactos dentro da discoteca. Ela chega à porta e diz ao porteiro que vem aí um grupo de amigos (glicose) que queria que entrasse na festa. O porteiro dá aquele jeitinho e deixa os amigos entrarem. Sem a insulina os amigos iriam acabar a noite mais cedo.
A produção de insulina é estimulada pela ingestão de hidratos de carbono. O corpo percebe que nós ingerimos tal macronutriente e diz ao pâncreas para produzir a insulina para que a glicose possa entrar nas células. Mas o que acontece se ingerirmos muitos hidratos de carbono e produzirmos muita insulina?
Os receptores acabam por ficar resistentes à insulina. Na nossa analogia, é como se chegassem vários colegas para falar com o porteiro a dizer que têm amigos que querem que entrem na festa ao mesmo tempo. O porteiro não pode deixar entrar todos .
Voltando à questão propriamente dita, o pior é que quanto menos os receptores reconhecem a insulina, mais o corpo produz esta, porque está cheio de glicose no sangue que não pode ficar ali. Esse estado de hiperinsulinemia leva à síndrome metabólica (gradual resistência à insulina).
Mas quem ingere muitos hidratos de carbono é quem come muito, não é?

sugar in drinks infographic

Não. Infelizmente os produtos disponíveis no mercado hoje em dia têm quantidades gigantescas de hidratos de carbono sem que encontremos saciedade neles. Os refrigerantes têm em média 10 colheres de açúcar numa lata de 350 ml e são tidos hoje em dia como um dos maiores responsáveis pela obesidade e desenvolvimento de doenças relacionadas no mundo. Se você bebeu duas latas de refrigerante numa refeição, pense que ingeriu 20 colheres de açúcar no espaço de tempo de menos de uma hora. Cereais, bolachas, molhos e tudo o que vem embalado tem muito mais hidratos do que aquilo que nós imaginamos, e sobretudo, muito mais do que aquilo que nós necessitamos. (Há diferenças claras entre diversos tipos de hidratos e o açúcar é um caso especial, mas isso é assunto para outro artigo.)
O mais importante a reter é que estamos a tratar da obesidade como sendo fruto de uma atitude negativa das pessoas, juntando dois pecados capitais: gula e preguiça. Só compreendendo como o corpo funciona e como a gordura REALMENTE é criada e acumulada no corpo, poderemos inverter essa nossa tendência a apontar o dedo e a ostracizar as pessoas obesas. Porque esse sim, é um pecado.

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